Ziriguidum fará uma live com a escritora Beatriz Aquino para o lançamento de seu livro Caligrafia Selvagem neste domingo


O Arte Ziriguidum fará às 16h neste domingo, 26 de julho, uma live com a escritora Beatriz Aquino para o lançamento de seu livro Caligrafia Selvagem, com a participação do escritor e crítico literário Krishnamurti Góes dos Anjos e Dalmoni Lydijusse.
O livro já está a venda por R$60, no Arte Ziriguidum.

O lugar das almas que amam
 
 
Algumas leituras nos surpreendem pelo manejo das palavras, elaboração do texto, forma como as coisas são ditas. Beatriz Aquino nos fala bem de perto, com intimidade. Estabelece conosco, os leitores, um diálogo fluido, rapidamente nos coloca à vontade e nos enlaça, puxando-nos para o seu mundo, do qual passamos a fazer parte. Como bem diz ao falar de sua caligrafia, percebe com extraordinária sensibilidade a necessidade de ser relevante. Relata, ao terminar a apresentação, ter pensado em pedir desculpas pelo muito já escrito e a escrever, talvez preocupada em não ter chegado ao lugar pretendido, mas para nossa satisfação conclui afirmando não desejar escusar-se. Ótimo. Seria injusto, um descalabro. Como escreve bem!


Ao nos tornar cúmplices de seus pensamentos, a autora nos carrega para um mundo ao mesmo tempo lírico e distópico. O lugar das almas que amam e, contudo, ao mesmo tempo, nos exibe almas que espelham o nada. Seu monólogo interior nos revela uma consciência jovem, embora nos deparemos, muitas vezes, com uma senhora experiente a perceber a realidade do seu entorno. Tal jogo, exibidor de uma narradora em primeira pessoa ora surpresa com certas peculiaridades da vida, ora irônica ao constatá-las, embora sempre crítica, nos aproxima no avançar das páginas do livro, dessa personagem tão peculiar: a narradora protagonista.
Não há um enredo propriamente dito. Classificar o material em mãos é difícil, inútil, desnecessário. Nem romance, conto ou livro de poesias. Ao mesmo tempo temos tudo na prosa poética contida neste Caligrafia selvagem. O suficiente para percebermos que é preciso encontrar um amanhecer do lado de dentro mesmo que a cidade não acorde.


Em tempos em que o mal domina a nossa política, uma pandemia nos aprisiona solitários e amedrontados internados entre muros, acovardados em um estranho universo que fomos incapazes de prever, ou mesmo imaginar, é fundamental ler e introjetar algumas das frases encontradas aqui: quanta ingênua ignorância nos serve de bússolamorrer em trânsito, transitório que somos, faz todo o sentidoenrubesço com elogios e fico enormemente tímida na frente de homens bonsescritores são uma alcateia bem estranhaagora que a esquerda caiu apodrecida de corrupção e culpavi ainda um beija-flor que não gostava de beijartransformaram o amor em uma novela e as novelas em boletins policiaise todos dançam fartos e famintos a dança da alienaçãoestamos todos mortos.


Preparem-se para ler um texto forte. Beatriz Aquino não está brincando de escrever. Da alcateia de escritores, ela sobressai-se como loba apta a permanecer entre alguns lobos mais velhos. E uiva, amaldiçoando nosso pertencer a esse universo imenso, escuro e impiedosamente eterno…
           
Ricardo Ramos Filho
30/03/2020
Escritor e atual Presidente da União Brasileira de Escritores.




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